1975, o ano pós-revolução
1. Neste ano de 2025 em que ocorrem três importantes actos eleitorais, passa meio século sobre o ano de 1975, ano importante na história recente de Portugal
pela ocorrência de acontecimentos sociais e políticos que viriam a marcar a vida dos portugueses naquele momento e nos tempos que se lhe seguiriam.
A Revolução dos Cravos, como ficou conhecida a revolução do 25 de Abril de 1974, pela circunstância de os soldados terem colocado cravos nos canos das espingardas simbolizando a ausência de violência, foi protagonizada pelas Forças Armadas encabeçada pelos capitães, oficiais descontentes com o modo como evoluía a guerra colonial e sua injusta causa, assim como por se sentirem desconsiderados ao verem os capitães milicianos, não provenientes
da academia militar, serem equiparados em direitos e regalias a si próprios.
A esta revolução, apoiada de imediato e entusiasticamente por um povo sedento de liberdade fortemente manifestada logo no 1º. de Maio, viria a seguir-se um conjunto de conturbados acontecimentos nas ruas, protagonizados pelas forças extremistas que levariam o Presidente da República de então, general António Spínola, a convocar a manifestação da “Maioria Silenciosa” dos portugueses para o dia 28 de Setembro em Lisboa, logo boicotada, levando à sua demissão e substituição pelo general Costa Gomes.
2. No ano seguinte, a 11 de Março de 1975, tentando travar a crescente influência da esquerda revolucionária, um grupo de militares descontentes, liderados novamente pelo general António Spínola, tenta um golpe de Estado falhado sendo obrigado a fugir para Espanha.
A consequência imediata seria a radicalização do processo revolucionário em curso – PREC - abrindo as portas às alas mais radicais do MFA dando início às nacionalizações dos principais sectores económicos como a Banca, os Seguros, os Transportes e toda a indústria estratégica como a Siderurgia, os Cimentos a Petroquímica, etc. assim como à chamada “Reforma Agrária”
com a ocupação dos latifúndios do Alentejo e Ribatejo culminando com a ascensão do PCP e de outras forças de extrema esquerda ao governo do país.
3. No mês seguinte, a 25 de Abril, contra a vontade das forças esquerdistas, realizar-se-iam as Primeiras Eleições Democráticas em Portugal com o objectivo de elaborar e aprovar a nova Constituição, eleições que, dando ao PS- 37,87% do eleitorado, ao PPD-26,39%, ao PCP- 12,52%, ao CDS-7,61%, ao MDP-4,1% e à UDP-0,79%, comprovavam a reduzidíssima força eleitoral da extrema-esquerda claramente contrária à aparente força que faziam sentir nas ruas.
A anarquia e a contestação crescente nas ruas, nas fábricas, nos quartéis e até na Assembleia da República foram provocando um crescente descontentamento no seio do povo, nos principais responsáveis políticos e nos militares moderados, culminando em Agosto do conhecido “Verão Quente”, com o aparecimento do célebre “Documento dos Nove”. Tal manifesto, assinado por nove militares moderados do MFA, com destaque para o major
Melo Antunes, que se opunha à radicalização do PREC e propunha um rumo democrático para Portugal rejeitando uma ditadura socialista, assim como defendia para o MFA o papel de força de equilíbrio e de garantia para a transição democrática, o apoio à economia mista, com sector público, privado e cooperativo e o respeito pela liberdade e pluralismo político.
4. A tensão social, política e militar foi crescendo, culminando com a rebelião das unidades militares de esquerda ligadas ao COPCON que ocuparam bases militares tentando subverter o poder democrático provocando, a 25 de Novembro, a reacção dos militares moderados que, coordenados pelo general Ramalho Eanes e com as tropas dos comandos da Amadora chefiadas pelo major Jaime Neves, rapidamente neutralizariam os revolucionários sem grande
resistência.
Era assim posto fim ao PREC tendo o poder regressado às instituições democráticas e perdido força o Conselho de Revolução que só seria extinto em 1982 com a revisão constitucional desse mesmo ano, conseguindo assim, apenas nessa altura, a libertação da tutela militar.
Agora, que nos aproximamos de novos actos eleitorais, tenhamos todos bem presente, sobretudo os responsáveis políticos, a importância da estabilidade social e política como forma de vencer os graves desafios que a Portugal e aos portugueses são colocados.
Guimarães, 1 de Abril de 2025
António Monteiro de Castro